Isabel Borges faz parte da equipa fundadora da Multitempo, onde iniciou funções como diretora Comercial e Técnica, em 1995, tendo, mais tarde, assumido a direção geral. Em 2021, com a aquisição da empresa pela Job&Talent, passou a Country Manager, liderando a operação em Portugal e a integração plena na estratégia Ibérica.
Licenciada em Gestão e Planeamento de Recursos Humanos no ISCSP-ULisboa, e com um percurso de mais de 30 anos, Isabel Borges acredita no poder da inovação, na força das pessoas, na importância de liderar com propósito e também no poder da IA para focar as equipas naquilo que é mais estratégico na atividade das empresas.
Desde 2019, Isabel Borges faz parte da Direção da APESPE RH, contribuindo para o desenvolvimento e valorização do setor dos recursos humanos em Portugal.
Como é que a Inteligência Artificial está a transformar a forma como as empresas recrutam e desenvolvem talentos?
A Inteligência Artificial (IA) trouxe-nos algo precioso: tempo e previsibilidade. Ela permite-nos gerir grandes volumes de candidaturas com uma consistência que antes era impossível, antecipando as necessidades de talento antes mesmo de elas se tornarem críticas. Na Job&Talent powered by Multitempo usamos a tecnologia para “limpar o caminho” no início do funil, automatizando contactos e qualificações iniciais. Isto permite-nos atingir o nosso objetivo de libertar as nossas equipas para o que realmente importa: o critério humano, a empatia na decisão e o acompanhamento próximo de cada pessoa.
[No recrutamento] delegamos na IA o que é repetitivo para que possamos mergulhar no que exige sensibilidade: entender motivações, alinhar expectativas e construir relações.
Em que medida a utilização da IA impacta a experiência do candidato durante o processo de recrutamento?
Para quem procura emprego, a IA traduz-se em respeito pelo seu tempo. O processo torna-se mais simples, rápido e transparente, garantindo que ninguém fica sem resposta e que se tem um contacto mais imediato. Contudo, nunca esqueço que um emprego mexe com a vida e a dignidade das pessoas. Por isso, a tecnologia pode abrir a porta, mas é a nossa capacidade de ouvir e compreender o contexto de cada candidato que garante uma experiência verdadeiramente humana e responsável.
Como é que se consegue manter os processos de recrutamento com uma componente de humanização quando se recorre cada vez mais à IA?
A tecnologia deve ser o nosso braço direito, reforçando a capacidade humana; nunca o nosso substituto. O recrutamento vive da confiança e isso não é automatizável. Delegamos na IA o que é repetitivo para que possamos mergulhar no que exige sensibilidade: entender motivações, alinhar expectativas e construir relações. O nosso modelo assenta precisamente nessa complementaridade: tecnologia para garantir rapidez, escala e consistência; e equipas humanas para assegurar critério, proximidade e qualidade na decisão.
Como se garante que os algoritmos de recrutamento são eficientes sem reproduzir vieses e desigualdades?
A eficiência só faz sentido se for ética. Um algoritmo é tão bom quanto os dados e os critérios que nós, humanos, lhe fornecemos. Por isso, não aceitamos decisões cegas. Supervisionamos e questionamos padrões constantemente para garantir que a IA apoia a objetividade, mas que o julgamento final respeita a diversidade e a igualdade de oportunidades. No recrutamento isso é particularmente importante, porque estamos a tomar decisões com impacto direto na vida das pessoas e nas oportunidades de acesso ao trabalho.
Num mundo que muda tão depressa, a nossa curiosidade é a nossa melhor ferramenta de sobrevivência.
Que competências continuarão a ser indispensáveis num mercado de trabalho cada vez mais impulsionado pela tecnologia?
Quanto mais tecnologia temos, mais valioso se impõe aquilo que nos torna humanos. O pensamento crítico, a inteligência emocional e a capacidade de liderar com empatia são, e continuarão a ser, os nossos grandes diferenciais. Mas há uma nova competência vital: a humildade para aprender, desaprender e voltar a aprender. Num mundo que muda tão depressa, a nossa curiosidade é a nossa melhor ferramenta de sobrevivência.
Quais são os maiores desafios que as empresas enfrentam hoje na atração e retenção de profissionais qualificados?
Hoje, atrair talento é um exercício de transparência. Os profissionais não procuram apenas um salário; procuram flexibilidade, propósito e uma experiência coerente. O meu foco tem sido mostrar que a retenção começa muito antes do primeiro dia de trabalho, iniciando-se, sobretudo, na forma como comunicamos e acolhemos a pessoa desde o primeiro contacto. A qualidade dessa relação inicial é o que define a competitividade de uma empresa.
As empresas que vencerão não são as que têm mais tecnologia, mas sim as que a usam para fortalecer a confiança e a proximidade com as suas pessoas.
Faz parte da equipa fundadora da Multitempo. Considera que a introdução da IA nas empresas e, especificamente, no recrutamento, pode ser a mudança mais profunda que assistiu nos Recursos Humanos desde 1995?
Estou nesta área desde 1995 e posso dizer que esta é, sem dúvida, a mudança mais profunda que já vivi. A IA não muda apenas uma ferramenta. Transforma também a nossa cultura e a forma como pensamos o trabalho. Mas, curiosamente, esta revolução tecnológica obriga-nos a ser ainda mais humanos. As empresas que vencerão não são as que têm mais tecnologia, mas sim as que a usam para fortalecer a confiança e a proximidade com as suas pessoas.
Que tendências em recrutamento e gestão de talento podem ganhar mais força nos próximos anos?
Caminhamos para um recrutamento preditivo, onde as “comunidades de talento” substituem a resposta reativa a vagas. Tudo será mais móvel e digital. No entanto, prevejo uma tendência inversa igualmente forte: a sede por contacto humano. Quanto mais digital for o processo, mais valorizado será o momento em que uma voz humana nos guia e nos dá segurança.
Que conselho deixa às empresas que querem usar cada vez mais a IA nos Recursos Humanos sem perder a cultura e o lado humano da liderança?
O meu conselho principal é começar pela estratégia e pelo propósito, nunca pela ferramenta. Definam claramente onde a IA traz eficiência e onde o vosso “toque humano” é inegociável. A cultura de uma empresa não se protege fugindo da tecnologia, mas sim liderando-a com intenção. A IA pode dar-nos os dados, mas só as pessoas conseguem dar sentido ao trabalho e construir um compromisso real.
Entrevista publicada em Executiva


